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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

MISSÃO PROFÉTICA DA IGREJA, A PROCLAMAÇÃO DA PALAVRA

A Igreja exerce atualmente o ministério profético sobre a face da Terra.

INTRODUÇÃO

- No ensino prático a respeito da Igreja, estudamos a “missão profética da Igreja”, ou seja, o exercício por parte da Igreja do ministério profético, um dos três ministérios dados por Deus aos homens e exercido simultaneamente por Jesus.

- A Igreja é, atualmente, a porta-voz de Deus sobre a face da Terra. Ela tem o Espírito Santo (Jo.14:7), cuja função é guiar a Igreja em toda a verdade e dizer tudo o que tiver ouvido bem como anunciar o que há de vir, glorificando e anunciando tudo o que respeita a Cristo (Jo.16:13,14). Por isso, não pode haver qualquer outro “mensageiro” divino além da Igreja enquanto durar esta dispensação.

I – OS TRÊS OFÍCIOS LEVANTADOS POR DEUS JUNTO À HUMANIDADE

- Esta lição pode, a princípio, trazer alguma dificuldade, tendo em vista que já estudamos a “evangelização” como a principal tarefa da Igreja. Assim, quando vemos, como título da lição, a idéia da “proclamação da Palavra”, parece que estaremos a repetir o tema da lição 2, visto que “proclamar a Palavra” seria “evangelizar”.

- A situação complica ainda mais quando, ao verificarmos o que é a “proclamação da Palavra”, chegamos ao conceito de “kerygma” (κήρυγμα), cujo significado é “proclamação” e “pregação”, palavra encontrada no Novo Testamento, relacionada seja com a pregação de Jonas em Nínive (Mt.12:41; Lc.11:32), seja com a pregação dos apóstolos (Rm.16:25; I Co.1:21; 2:4; 15:14; II Tm.4:17; Tt.1:3), ainda que sempre assim tenha sido denominada pelo apóstolo Paulo.

- Entretanto, ainda que seja inegável encontrarmos na noção de “kerygma” a pregação do Evangelho, e, portanto, a missão de evangelização e de anúncio, tarefa primordial da Igreja, não estamos diante de uma repetição de tema, mas, sim, da observância do tema sob um novo aspecto, um novo ponto-de-vista, qual seja, o da Igreja como o corpo de Cristo, como o povo destinado a prosseguir as obras do Senhor, obras estas que se resumem ao que se costuma chamar de “tríplice ministério de Cristo” ou os “três ofícios de Cristo”, a saber: profeta, sacerdote e rei.

- Como salientou o ilustre comentarista logo no início de seu comentário a esta lição, o “kerygma” será visto não sob o aspecto do relacionamento da Igreja com o mundo, não no seu aspecto de mensagem para a salvação, mas no relacionamento entre a Igreja e Cristo, ou seja, o papel da Igreja como “testemunha de Cristo” (At.1:8), como formada por “ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” (I Co.4:1), como portadora da mensagem divina, como “boca de Deus” para este mundo perdido e sem salvação, como foi Arão em relação a Moisés (Ex.4:15,16). Não se trata, portanto, de falarmos a respeito da transmissão do Evangelho para a salvação das almas, mas, sim, da responsabilidade que tem a Igreja de ser a portadora da Palavra de Deus, a ser proclamada, divulgada e defendida pela Igreja, não só com palavras, mas, principalmente, com atitudes.

OBS: Esta confusão quanto ao conceito de “kerygma” aumenta ainda mais quando se adota a concepção difundida pela teologia romanista, que tem chamado de “kerygma”, “o primeiro contato com a boa nova do Evangelho” ou “a pregação missionária para suscitar a fé”, o primeiro passo da evangelização e que levou o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa a considerar como segundo significado de “querigma”, “transmissão do cerne da mensagem cristã a quem não é cristão, visando convertê-lo”.

- Uma das características humanas de Jesus foi a de ter recebido um nome. O anjo que anunciou o nascimento do Senhor disse que Ele deveria ser chamado de “Jesus”, porque salvaria o Seu povo dos pecados deles (Mt.1:21). Evidentemente que a forma “Jesus” é a forma grega do nome hebraico “Yehoshua”, até porque o Novo Testamento foi escrito em grego e não na língua hebraica que, aliás, nem mais era falada pelo povo nos tempos de Jesus. Apesar de este ser o Seu nome, logo após o início do Seu ministério terreno, Jesus passou a ser reconhecido como o “Messias”, ou seja, o “Ungido”, Aquele que havia sido separado por Deus para efetuar a redenção de Israel e de toda a humanidade. Ora, a palavra “Messias” é hebraica (“Maschiach”), como se vê em Dn.9:25,26 e seu termo correspondente em grego é “Cristo” (Jo.1:41; 4:25). Por isso é que Jesus passou a ser chamado Cristo (Mt.27:17,22), como também Filho de Davi (Mt.9:27; 12:23; 15:22; 21:9), outra expressão que demonstrava o reconhecimento de que Jesus era Aquele que havia sido prometido por Deus para a redenção de Israel.

- Vemos, portanto, que a expressão “Cristo”, “Messias” ou “Filho de Davi” não nos dá qualquer informação sobre a natureza divina ou humana de Jesus, mas, sim, revela que Ele tinha uma missão, uma obra a cumprir sobre a face da Terra. Ele fora escolhido pelo Pai para realizar a salvação da humanidade, para resgatar o gênero humano, pagando o preço do pecado da humanidade em Si mesmo, reconciliando Deus com o homem e desfazendo, assim, a divisão ocasionada pelo pecado e fomentada pelo adversário de nossas almas (Ef.1:7-10; I Jo.2:2; 3:8). Jesus tinha plena consciência disto, tanto que não Se cansava de dizer que viera para fazer a vontade do Pai, que tinha uma obra a realizar (Jo.5:30; 6:39; 12:27; 17:4; 18:37).

- Porque Jesus é o “Cristo”, o “Messias”, o “Filho de Davi”, ou seja, o “Ungido”, aquele que foi separado para a realização de uma tarefa, a obra da salvação da humanidade, não é surpresa observar que, como Jesus é o centro de todo o plano de Deus para a salvação do homem, nEle estivessem todas as funções que, ao longo dos séculos, o Senhor foi separando homens para a preparação da vinda do Cristo. Expliquemo-nos melhor: Jesus é o centro, o ponto mais alto de todo o plano de Deus para a salvação do homem, mas este plano não se realizou de uma hora para outra. Foram necessários séculos, milênios para que da semente da mulher nascesse o Messias. Por isso, enquanto o Messias não vinha, o Senhor Se revelou progressivamente aos homens, por intermédio de pessoas que escolheu. Estas pessoas escolhidas por Deus exerceram três funções distintas, a saber: sacerdote, profeta e rei. Ao longo dos séculos, Deus escolheu alguns para estas funções, mas, e isto é importante, ninguém chegou a exercer plenamente estas três funções ao mesmo tempo. Eram apenas servidores parciais, que preparavam o caminho do Cristo. Este, sim, que, como centro de toda a revelação divina, teria de exercer, a um só tempo, as três funções. São estas três funções, que foram unicamente exercidas em toda a sua plenitude por Jesus, que constituem o que os estudiosos da Bíblia denominam de “os três ofícios de Jesus”, que nos esclarecem o papel desempenhado por Jesus no plano da salvação da humanidade.

- A Igreja é o corpo de Cristo (I Co.12:27; Ef.4:12) e esta figura bíblica nos fala de que cabe à Igreja, portanto, na atual dispensação, iniciada com a subida de Cristo aos céus e a vinda do Espírito Santo para não deixar a Igreja órfã (Jo.14:18), continuar e ampliar as obras feitas por Jesus em Seu ministério terreno (Jo.14:12), de modo que a Igreja tem o dever de exercer os três ofícios que eram exercidos pelo Senhor Jesus. Assim, a Igreja é a portadora legítima e exclusiva dos ministérios profético, sacerdotal e real.

- Tanto assim é que a Igreja é denominada por Pedro como sendo “o sacerdócio real” que tem como finalidade “anunciar as virtudes daquele que chamou a Igreja das trevas para a maravilhosa luz de Jesus” (I Pe.2:9), sendo corroborado por João que nos diz, no Apocalipse, que Jesus nos fez “reis e sacerdotes para Deus e Seu Pai” (Ap.1:6), reis e sacerdotes que, a exemplo do próprio João, testificam da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus Cristo e de tudo o que têm visto (Ap.1:2). Enfatiza-se, pois, nestas passagens, o papel assumido pela Igreja, na qualidade de corpo de Cristo, de exercer os ofícios sacerdotal, real e profético.

- Estes três ofícios devem, pois, ser desempenhados pela Igreja, que é o corpo de Cristo, nesta dispensação. A lição detém-se apenas no ministério profético da Igreja. A teologia romanista denominou cada um destes ofícios, muito adequadamente, de “múnus” da Igreja. Ora, “múnus” é palavra latina que significa “tarefa obrigatória, encargo, obrigação, dever obrigatório de alguém”. Trata-se, sem dúvida alguma, de uma expressão muito apropriada, vez que a Bíblia nos mostra que, enquanto servos do Senhor, temos de Lhe obedecer, vez que somos tão somente varas da videira verdadeira (Jo.15:1-6). O exercício dos três ministérios pela Igreja, portanto, não é uma opção de cada crente, mas um dever que nos é imposto pelo Senhor, a cabeça da Igreja, sendo Ele próprio o Salvador do corpo (Ef.5:23).

OBS: No Concílio Vaticano II, a Igreja Romana, em seu reposicionamento doutrinário, muito enfatizou o fato de a Igreja ser dotada de três múnus, que denominou de “sacerdócio comum”, “múnus profético” e “múnus de reger” ou “múnus de governar”. Esta teorização, embora, naturalmente, tenha sido feita sobre as premissas do romanismo, pode, muito bem ser acolhida no estudo da Igreja, vez que corresponde ao que a Bíblia ensina a respeito dos três ofícios destinados ao corpo de Cristo:“… Jesus Cristo é aquele que o Pai ungiu com o Espírito Santo e que constituiu ‘Sacerdote, Profeta e Rei’. O Povo de Deus inteiro participa dessas três funções de Cristo e assume as responsabilidades de missão e de serviço que daí decorrem.…”(cânon 783 do Catecismo da Igreja Católica)

II – O MÚNUS PROFÉTICO DA IGREJA

- Para bem entendermos cada múnus, cada ofício ministerial destinado à Igreja, temos de saber os parâmetros e as diretrizes pelas quais o Senhor Jesus exerceu cada ofício em Seu ministério terreno, pois a Igreja nada mais é que imitadora de Cristo (I Co.11:1), devendo, aliás, cada um dos integrantes deste povo de Deus ser considerado como “ministro de Cristo e fiel despenseiro dos mistérios de Deus” (I Co.4:1,2). Ora, para que se possa verificar fidelidade, é indispensável que se observe um padrão, um modelo a ser seguido, modelo este que outro não pode ser senão Cristo.

- O ofício de profeta é dos mais antigos constituído por Deus dentre os homens para preparar o caminho para a vinda do Verbo Divino, visto que o primeiro profeta registrado nas Escrituras é Enoque, o sétimo depois de Adão (Jd.14), embora a primeira pessoa chamada de profeta na Bíblia seja Abraão (Gn.20:7).

- A palavra “profeta” é de origem grega e significa “o porta-voz”, ou seja, aquele que fala em nome de alguém, aquele que anuncia, traz uma mensagem de alguém, que interpreta a opinião de uma determinada divindade. Aliás, antigamente, os hebreus chamavam o profeta de “vidente” (I Sm.9:9), ou seja, aquele que tinha a capacidade de “ver” a vontade divina, de entendê-la e anunciá-la ao povo.

- Ao falar sobre a vinda do Messias, Moisés disse que Ele seria profeta (Dt.18:18). Jesus, mesmo, disse que era profeta (Mt.13:57; Mc.6:4; Lc.4:24) e o povo assim O considerava (Mt.14:5; 21:11,46; Jo.4:9). Jesus não só disse que era profeta, como anunciou a Palavra de Deus, o que O qualificou como sendo profeta. Pregou o Evangelho, ou seja, as boas novas de salvação (Mc.1:14,16), tendo, por algumas vezes, dito explicitamente que o que falava era por determinação do Pai (Jo.7:16-18; 14:10; 15:15).

- Como porta-voz de Deus, o profeta, muitas vezes, fala do futuro, pois, para Deus não há futuro e, portanto, pode revelar, por meio de profetas, o que está para acontecer. Jesus, enquanto profeta, também predisse o futuro, como, por exemplo, a destruição do templo de Jerusalém (Mt.24:2), profecia que se cumpriu literalmente no ano 70 d.C. Muitas outras predições foram feitas pelo Senhor, inclusive as relativas aos sinais de Sua vinda, que estão se cumprindo plenamente nos nossos dias. As Escrituras, mesmo, dizem que o testemunho de Jesus é o espírito de profecia (Ap.19:10).

OBS: “…O testemunho de Jesus é o espírito de profecia. O testemunho de Cristo será levado a efeito por meio da ‘profecia’, conforme se vê no presente versículo [Ap.19:10, observação nossa]. O Espírito de Cristo é quem inspira a profecia deste livro do princípio ao fim (1.3; 11.6; 19.10; 22.7,18,19). A palavra foco ocorre sete vezes no Apocalipse e a palavra ‘profeta’ por doze – portanto o livro traz o selo da profecia e a raiz desta se encontra em quase todo o restante da Bíblia e o seu fruto é reunido neste último livro da Bíblia…” (SILVA, Severino P. da. Apocalipse versículo por versículo. 2.ed., p.245-6). Bem se vê que, ao contrário do que defendem os adventistas, o espírito de profecia não é a sra. Ellen White.

- Jesus é o maior de todos os profetas, pois, sendo Deus, sendo o Verbo, ou seja, a própria Palavra (Ap.19:13), constitui-Se no mais fidedigno porta-voz de Deus aos homens, vez que é a própria Palavra de Deus que veio habitar entre nós. Os ditos divinos estão plenamente contidos na boca do Senhor Jesus, que é a própria expressão da Divindade entre os homens (Cl.2:9; Hb.1:3). Ao contrário dos demais profetas, que, por maiores que fossem, como é o caso de Moisés (Dt.34:10) e de João Batista (Lc.7:26,28), que tiveram falhas ao longo de suas vidas e de suas bocas saiu algo que não era proveniente da vontade de Deus (Nm.20:10-12; Lc.7:19), jamais se achou engano nos lábios de Jesus (Is.53:9).

- O ministério profético de Jesus é tão evidente que mesmo entre aqueles que Lhe negam a divindade, como é o caso dos judeus e dos muçulmanos, é ele reconhecido como um profeta, como um porta-voz divino, notadamente entre os islâmicos, que o têm como o maior profeta depois de Maomé.

OBS: Como exemplo da consideração de Jesus como profeta entre os muçulmanos, transcrevemos os seguintes versículos do Alcorão: “…Dizei: Cremos em Deus, no que nos tem sido revelado, no que foi revelado a Abraão, a Ismael, a Isaac, a Jacó e às tribos; no que foi concedido a Moisés e a Jesus e no que foi dado aos profetas por seu Senhor; não fazemos distinção alguma entre eles, e nos submetemos a Ele. (2:136).”

- Não resta, portanto, qualquer dúvida de que Cristo foi profeta e que a Igreja, enquanto Seu corpo, deve prosseguir no exercício deste ministério. De pronto, verificamos que como o maior profeta que já existiu foi o próprio Jesus, o ofício profético não pode mais ser exercido por nenhum indivíduo isoladamente, pois não há como Deus continuar a Sua revelação, vez que já Se revelou plenamente na pessoa de Jesus, onde habita toda a plenitude da Divindade (Cl.2:9). Isto já é suficiente para não aceitarmos, de forma alguma, todo e qualquer “profeta” que venha “complementar” ou, de algum modo, “alterar” a mensagem divina trazida por Cristo. Todo e qualquer “profeta” que se levantar dentro desta perspectiva está a trazer um “outro evangelho” e, portanto, deve ser considerado anátema (Gl.1:8,9).

- O ofício profético da Igreja, portanto, é algo que não pode ser individualizado e que, por isso mesmo, distingue-se seja do dom ministerial de profecia(Ef.4:11), seja do dom espiritual de profecia (I Co.12:10; 14:1).

- O ofício profético tem, por finalidade, anunciar a Verdade Divina, oculta aos homens, o progressivo mostrar-Se de Deus à humanidade, que atingiu seu clímax na revelação de Jesus (Hb.1:1), revelação esta que deve prosseguir, agora por intermédio da Igreja que, como simples corpo de Cristo, não pode aumentar a cabeça, mas apenas mostrá-la aos homens. Daí porque Jesus ter Se referido ao fato de que ninguém pode acrescentar um côvado à sua estatura (Mt.6:27), expressão que mostra bem a impossibilidade humana de trazer o aumento da cabeça, acrescentar algo à revelação que Cristo proporcionou de Si mesmo ao gênero humano.

- O dom ministerial de profecia, constituído pelo próprio Cristo na Igreja, tem em vista a revelação de fatos, de circunstâncias e de orientação, a partir da revelação divina, contida nas Escrituras, para que haja a edificação, exortação e consolação dos salvos. Trata-se da exposição da Palavra de Deus, de sua explicação, de sua aplicação às situações concretas da vida. Os “profetas” são, assim, pessoas escolhidas por Deus no meio da Sua Igreja para que sejam veículos de orientação e de direcionamento dos crentes no dia-a-dia, por meio do estudo e da meditação nas Sagradas Escrituras.

- O dom espiritual de profecia, por sua vez, é uma demonstração do poder do Espírito Santo na Igreja, a concessão sobrenatural a alguém do poder de revelar fatos, circunstâncias e dar orientações, visando a edificar, consolar e exortar a Igreja, mediante uma comunicação direta do Espírito ao povo de Deus, sem a mediação das Escrituras, como ocorre no dom ministerial.

- O múnus profético da Igreja, portanto, não é, em absoluto, a autorização para que a Igreja, mediante uma “Tradição”, acrescente o que foi revelado pelas Escrituras a respeito de Cristo (Jo.5:39), mas tão somente a divulgação, o anúncio, a explicação daquilo que está contido na Bíblia Sagrada, que é a Verdade (Jo.17:17) e que se encontra em posição superior à própria Igreja, seja porque é fonte de sua santificação, seja porque a Palavra se encontra engrandecida acima do próprio nome do Senhor (Sl.138:2), nome que está acima de todo o nome (Fp.2:9), precisamente por ser Jesus o Verbo (Jo.1:1), Aquele que é a própria Palavra de Deus (Ap.19:13). Por isso, quando não se conhecem as Escrituras, cometem-se erros (Mt.22:29).

III – O EXERCÍCIO DO MÚNUS PROFÉTICO DA IGREJA

- A Igreja é chamada de “coluna e firmeza da verdade” (I Tm.2:15), porque deve sustentar e ser a legítima anunciadora da Palavra de Deus sobre a face da Terra. Num mundo onde a iniqüidade aumenta a cada dia (Mt.24:12), num mundo onde há corrupção geral e cada vez maior do gênero humano (Rm.1:18-32), cabe à Igreja a difícil tarefa de anunciar a Verdade, de mostrar ao mundo a Palavra de Deus, resplandecendo como astro no meio de uma geração corrompida e perversa (Fp.2:15).

- Em primeiro lugar, devemos observar que o exercício do ofício profético traz-nos uma realidade que, muitas vezes, nós não percebemos: a Palavra de Deus é um mistério para o homem, algo que a mente humana não poderia jamais descobrir se não fosse revelado por Deus. Não é por outro motivo que a Igreja é dita formada de “ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” e que a própria Igreja é chamada de “mistério de Cristo, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos Seus santos apóstolos e profetas” (Ef.3:4,5). Aliás, nem mesmo os homens de Deus do passado tiveram condições de perceber, em toda a plenitude, a revelação que se deu à Igreja (Hb.11:39,40; I Pe.1:10-12).

- A Bíblia On-line da Sociedade Bíblica do Brasil traz três definições de “mistério” que, por sua oportunidade e adequação, merecem ser analisadas aqui. A primeira é “segredo desconhecido até que seja manifestado por Deus por algum meio”. Sem dúvida alguma, somente a Igreja pode apresentar ao mundo os segredos divinos, todos eles, aliás, que se fizeram conhecidos através de Jesus Cristo (Jo.15:15). Deus só revela os Seus segredos aos Seus servos, os profetas (Am.3:7), motivo por que somente quem tem o Espírito de Deus, somente o povo adquirido pelo Senhor é quem pode anunciar a Verdade, revelar o que esteve oculto noutros séculos.

- A segunda definição de “mistério” é “o plano de Deus revelado no evangelho para a salvação de toda a humanidade”. O Evangelho é apresentado como um “mistério” que incumbe tão somente à Igreja pregar. O Evangelho é chamado de “mistério” (Rm.16:25; Ef.6:19; Cl.1:25-29; I Tm.3:9). A pregação do Evangelho, portanto, é um dos aspectos da revelação deste mistério.

- A terceira definição de “mistério”, na Bíblia On-line é “o conhecimento secreto que só Deus pode tornar conhecido”, algo que diz respeito ao exercício dos dons ministerial e espiritual da profecia e que é peculiar e particular a um determinado indivíduo ou a um grupo de indivíduos, que tem como finalidade a orientação e a demonstração cotidiana da onisciência divina ao Seu povo (cfr. Ap.1:20).

- Quando temos a noção de que a Palavra de Deus que devemos anunciar é um mistério, ou seja, algo que não é capaz de ser percebido pela mente humana sem a revelação divina, sem a operação do Espírito Santo, passamos a perceber que a Igreja é apenas o instrumento desta revelação, que é feita pelo próprio Deus, através da Pessoa do Espírito Santo, que dirige a Igreja e a faz se lembrar de tudo quanto foi anunciado pelo Senhor Jesus. O dever da Igreja é proclamar a Palavra, mas ela não o faz de “per se”, ou seja, ela não proclama a Palavra porque seja “a dona da verdade” nem tampouco por sua própria sabedoria ou capacidade, mas sob a direção do Espírito Santo, segundo as Escrituras, conforme a revelação divina, que atingiu em Cristo o seu ponto máximo e insuperável.

- A Igreja, portanto, enquanto corpo de Cristo, não é senão o “depósito”, a “despensa” da Verdade, que é o próprio Cristo. Por isso, nenhuma “Tradição” ou “Magistério” da Igreja pode se sobrepor ou se equiparar às Escrituras. A Igreja deve tão somente transmitir a Palavra, explicá-la, expô-la, pois são os “mistérios de Deus”, que foram trazidos ao nosso conhecimento pela graça e misericórdia divinas.

- É, pois, com profunda tristeza quando vemos que, em muitas igrejas locais, em vez de anunciar a Palavra, de nela se aprofundar e nela meditar de dia e de noite, vemos que muitos crentes têm preferido contender, discutir, debater e, não raras vezes, lutar contra a Palavra. Não é para isto que existe a Igreja. A Igreja deve fugir dos debates intermináveis, das dificuldades bíblicas infindáveis, das porfias e querelas escriturísticas, para não falar das intermináveis polêmicas a respeito de usos e costumes, pois tal comportamento é um desvio de conduta, uma subversão do objetivo estabelecido pelo Senhor para a Sua Igreja, até porque, segundo nos ensina o apóstolo Paulo, a entrega a vãs contendas é fruto de uma vida espiritual enferma e reprovável (I Tm.5-7).

- O primeiro exercício do múnus profético da Igreja está, precisamente, na pregação do Evangelho ao mundo, na tarefa da evangelização. Faz parte do múnus profético da Igreja a evangelização, missão esta que é fundamental e que, não sem motivo, foi o assunto primeiro a ser tratado dentre as missões da Igreja, na lição 2. A pregação do Evangelho é uma responsabilidade que a Igreja tem diante de seu Senhor, que não só a determinou, em caráter imperativo (Mc.16:15), como também a efetuou em Seu ministério terreno (Mc.1:15).

OBS: O Código Canônico da Igreja Romana, em seu cânon 225,§ 1º traz uma afirmação que deveria ruborizar a genuína e autêntica Igreja. Ali se diz que “…todos os fiéis(…) têm obrigação geral e gozam do direito de trabalhar para que o anúncio divino da salvação seja conhecido e aceito por todos os homens, em todo o mundo: esta obrigação é tanto mais premente naquelas circunstâncias em que somente através deles os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo.”

- O múnus profético da Igreja, porém, não se esgota no anúncio do Evangelho, ou seja, em dizer que Jesus salva, cura, batiza com o Espírito Santo e leva para o céu, mas, também, como nos mostrou o Senhor Jesus, em “andar fazendo bem” (At.10:36-38). Jesus não só anunciou a Palavra a partir do batismo no rio Jordão, como também vivenciou a Palavra, fazia tudo aquilo que pregava, residindo aí a autoridade de Sua doutrina e a grande diferença entre o Seu ensino e o dos fariseus (Mt.7:28,.29; 23:2-4).

- O “kerygma” não se esgota nem se encerra na oratória, na exposição eloqüente e ungida do Evangelho, mas, sim, tem nesta exposição o seu primeiro aspecto. O múnus profético da Igreja estende-se ao que se costuma chamar de “martyria” (μαρτυρία), ou seja, “testemunho”. Jesus, diz-nos a Escritura, “andava fazendo bem” e Ele próprio nos informa que quando fazemos boas obras, os homens glorificam ao nosso Pai que está nos céus (Mt.5:16).

- A proclamação da Palavra exige um testemunho por parte da Igreja. A Igreja deve ser chamada pelos gentios e judeus de “cristãos”(At.11:26), ou seja, “parecidos com Cristo” e, por isso mesmo, uma vida que não corresponda às palavras que profiramos será causa de “escândalo”, ou seja, de tropeço, de descrédito da mensagem evangélica. Jesus, a propósito, foi bem claro a respeito: “Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem” (Mt.18:7).

OBS: Devemos aqui reproduzir parte da Constituição dogmática Lúmen Gentium, documento doutrinário principal do Concílio Vaticano II, outra afirmação que deve nos alertar pela sua biblicidade: “…Cristo, o grande Profeta que proclamou o Reino do Pai, quer pelo testemunho de vida, quer pela força da palavra, continuamente exerce Seu múnus profético até à plena manifestação da glória. Ele o faz não só através da Hierarquia (…) mas também através dos leigos. Por esta razão constituiu-os testemunhas e os ornou com o senso da fé e a graça da palavra (cf. At.2:17-18; Ap.19:10), para que brilhe a força do Evangelho na vida cotidiana, familiar e social. Eles se apresentam como filhos da promessa quando, fortes na fé e esperança, aproveitam o momento presente (cf. Ef.5:16; Cl.4:5) e esperam a glória futura pela paciência (cf. Rm.8:25). Mas não escondam esta esperança no íntimo da alma, e sim pela renovação contínua e pela luta ‘contra os dominadores do mundo das trevas, contra os espíritos da malícia’ (Ef.6:12) também a exprimam nas estruturas da vida secular.…” (Lumen Gentium, n.35).

- Quando o cristão e a igreja local apresentam-se como “luz do mundo” e “sal da terra”, tendo uma vida diferente dos demais homens e mulheres que os cercam, vivendo aquilo que pregam, “fazendo a diferença”, como se costuma dizer hoje em dia, estamos a proclamar a Palavra de Deus, a cumprir o múnus profético que nos foi dado pelo Senhor Jesus. Jesus fazia isto. Enquanto o mundo pecava, enquanto Seu próprio povo O rejeitava, Jesus “andava fazendo bem”, tinha uma vida sem pecado, a ponto de poder desafiar os pecadores (Jo.8:7-11,46). Assim, também, procederam os Seus discípulos, como Estevão(At.8:51-60) e Paulo (At.24:14-16).

- A fé em Jesus leva o crente, necessariamente, a uma prática diferente da dos demais homens. Quem confia em Cristo, faz o que Ele manda, ainda que isto possa parecer loucura para a mente humana. Aliás, a “pregação” foi considerada como uma loucura pelo apóstolo Paulo (I Co.1:21). “Pregação”, ou seja, o “kerygma”, é algo que não pode ser entendida pela lógica do homem, pela razão, mas é algo que deve ser aceito por fé. A fé leva-nos a praticar boas obras, daí porque Tiago ter dito que a fé sem obras é morta, simplesmente não existe (Tg.2:26).

- Quando os apóstolos disseram que era seu dever dedicar-se à oração e ao ministério da palavra (At.6:4), estavam a dizer que tinham de ter um testemunho irrepreensível, que deveriam demonstrar, em todos os lugares, em todas as horas, sua qualidade de servos do Senhor Jesus. O interessante é que o servo de Jesus não é aquele que se diz servo de Deus, mas aquele que é reconhecido como tal, em virtude de suas atitudes, pelos outros, em especial, os incrédulos. Os discípulos eram identificados como seguidores de Cristo e não o contrário (At.4:13). Será que precisamos dizer às pessoas que somos salvos? Será que nossas ações levam os homens a se escandalizar ou a glorificar a Deus?

OBS: Ainda uma vez reproduzimos trecho da Lumen Gentium: “…os leigos tornam-se valiosos pregoeiros da fé nas coisas a serem esperadas (cf. Hb.11:1), quando, intrepidamente, com a vida da fé conjugam a profissão da fé. Esta evangelização, isto é, este anunciar de Cristo por um testemunho vivo e pela palavra falada, adquire características específicas e eficácia particular pelo fato de se realizar nas condições comuns do século.…”(n.35).

- Este testemunho encontra relevância especial na vida familiar. Com efeito, sendo a família o primeiro grupo social a que pertence o ser humano, e tendo sido uma instituição criada por Deus, é o lugar onde mais se demonstra o valor e o poder da Palavra de Deus. Jesus, antes de subir aos céus, fez questão de procurar os membros de Sua família terrena, incrédulos (Jo.7:5) que, porém, se tornaram crentes (At.1:14). Não é sem motivo que, nos dias em que vivemos, tenha o inimigo escolhido a família como alvo preferencial de seus ataques. Sem uma vida familiar estável e na presença de Deus, temos o nosso testemunho sensivelmente comprometido e, portanto, prejudicada a nossa missão profética.

- Mas andar fazendo bem não é apenas praticar boas obras. Jesus, além de praticar boas obras, também denunciava os erros e as injustiças (Mt.7:5; 23; Lc.13:32; Jo.9:39-41; 19:11). A missão profética da Igreja abrange a “denúncia”, a “katangelia” (καταγγελια), palavra grega composta de “kata”, que significa “por toda a parte”, “para baixo” e “angelia”, que é mensagem. A “denúncia”, pois, é uma mensagem que está “por baixo”, “em toda a parte” de uma outra mensagem, de uma outra afirmação.

- A Igreja tem o dever de denunciar os erros e os desvios deste mundo. Como portadora da Verdade, deve se posicionar sempre que uma decisão, uma idéia, uma afirmação vier a contrariar as Escrituras. É dever indeclinável da Igreja alertar, na qualidade de profeta de Deus, os descaminhos e os rumos contrários à Palavra de Deus que têm sido cada vez mais intensamente adotados pelo mundo.

OBS: Corretíssimo, aliás, o cânon 747, § 2º do Código Canônico da Igreja Romana, que ora transcrevemos: “Compete à Igreja anunciar sempre e por toda a parte os princípios morais, mesmo referentes à ordem social, e pronunciar-se a respeito de qualquer questão humana, enquanto o exigirem os direitos fundamentais da pessoa humana ou a salvação das almas.”

- A Igreja, tendo uma vida exemplar e de santidade, tem autoridade moral e espiritual para denunciar o pecado e todas as atitudes, seja de quem for, que tiver por objetivo desviar a sociedade da verdade bíblica, fazer com que o mundo peque ainda mais ou, mesmo, seja levado a um embaraço maior. A Igreja não pode se calar diante de artimanhas do inimigo, pois não pode ignorar os seus ardis (II Co.2:11).

- Esta atitude profética da Igreja encontra-se muito demonstrada nos profetas do Antigo Testamento que, não poucas vezes, tiveram de se indispor com a sociedade de seus dias, mui especialmente com os governantes e os integrantes das classes sociais integrantes da elite. Quando vemos as mensagens contundentes de Elias, Eliseu, Amós, Isaías, Jeremias, Ezequiel e de João Batista, entre outros, percebemos que o exercício do múnus profético é espinhoso, antipático e ensejador de perseguições, mas que não há outro caminho a seguir senão falar a verdade, custe o que custar. Aliás, estes profetas falaram sem ter noção exata do preço da salvação e a Igreja, que sabe, agora, que custou o precioso sangue de Jesus (I Pe.1:18,19), o que tornará o custo da nossa denúncia sempre muito inferior ao preço do nosso resgate, como também em comparação com a glória que está reservada para os fiéis (Rm.8:18).

- A denúncia é uma necessidade e faz parte da “proclamação da Palavra”, do múnus profético da Igreja. Se, verdadeiramente, somos servos de Cristo, não podemos agradar aos homens, mas unicamente a Deus (Gl.1:10; Ef.6:6). Como a Palavra de Deus não muda, mas permanece para sempre (I Pe.1:25), temos que a Igreja sempre defenderá as mesmas posições doutrinárias, visto que a Verdade é única, não comporta “adaptações” nem “novas conformações”, como têm defendido os filósofos influentes da atualidade. Por isso, não pode a Igreja deixar de “denunciar” os desvios e os erros cometidos pelos homens, conclamando a todos a praticarem o que está de acordo com a vontade de Deus, pois é esta vontade que temos de anunciar (Mt.6:10; Ef.1:9).

- Entretanto, com pesar verificamos, nos dias em que vivemos, que mais e mais pessoas, nas igrejas locais, não só não denunciam os erros praticados, como também se deixam influenciar pelas práticas pecaminosas. Muitos estão a proferir o nome do Senhor, mas não mais fazem a Sua vontade e serão surpreendidos na volta de Cristo(Mt.7:21). Que Deus nos guarde, pois só quem faz a vontade de Deus é que pode ser considerado herdeiro de Deus e co-herdeiro de Cristo (Mc.3:35). Ter comunhão com Jesus não é participar da ceia do Senhor, mas, sim, fazer a vontade do Pai (Jo.4:34).

- A denúncia traz uma conseqüência imediata e que também faz parte do múnus profético da Igreja, que é a “defesa da fé”. Com efeito, quando a Igreja denuncia o pecado e os desvios doutrinários, há uma reação por parte dos adversários da Verdade, já que há uma batalha espiritual entre a Igreja e este mundo, que se encontra sob o domínio do deus deste século (Ef.6:12). Surge daí, então, a necessidade de “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd.3), necessidade que foi sentida por Judas, o irmão do Senhor e que o levou a escrever a sua epístola.

- Esta “batalha pela fé” é conhecido como “apologia”(απολογία), ou seja, a defesa ou a justificação da fé, o uso de argumentos e de um discurso que tente convencer as pessoas de seus erros e desacertos em não observar a Palavra de Deus. A palavra “apologia” é encontrada em o Novo Testamento com o sentido de “defesa” ou de “resposta”, como se vê em At.25:16, Fp.1:7, II Tm.4:16 e I Pe. 3:15, sendo que, neste último versículo, Pedro deixa bem claro que é dever do cristão estar sempre pronto para “responder a razão da esperança que há em vós”. Judas fala no “batalhar pela fé”, usando a palavra grega “epagonidzomai” (επαγωνίζομαι), de modo que poderíamos também denominar este aspecto do múnus profético de “epagonidzoma”.

- A “apologia” ou “epagonidzoma” não se restringe, porém, a meros argumentos retóricos ou lógicos, não é um mero exercício de racionalidade ou de intelectualidade, mas tem de se refletir em ações concretas, em iniciativas bem definidas que levem a Igreja e cada crente a repudiar as práticas pecaminosas. À evidência, tais ações e atitudes podem levar a respostas violentas, cruéis e, no limite, até à perseguição e morte, mas não podemos nos acovardar, pois os tímidos não herdarão o reino de Deus (Mc.4:40; Ap.21:8). Não nos esqueçamos que precisamos amar mais a glória de Deus do que a glória dos homens (Jo.12:42,43) e que uma atitude de timidez e de covardia equivale a uma negação, a uma recusa de confissão e quem não confessar a Jesus diante dos homens, será também negado pelo Senhor diante do Pai (Mt.10:32,33). Que possamos ser achados dignos do Senhor Jesus pela nossa confissão, pela nossa atitude de “apologia” da fé cristã (Mt.10:37,38).

- A apologia, ademais, deve ser feita com “mansidão e temor” (I Pe.3:15), o que somente é possível quando, antes, nos santificamos a Cristo em nossos corações. A “defesa da fé” exige, antes de mais nada, uma vida de santificação, uma vida sincera de comunhão com Deus, sem o que seremos motivo para escândalo em vez de sermos “vexilários da fé” (i.e., soldados que combatem sob bandeira própria, porta-bandeiras da fé), dever que temos como nos recorda o autor do hino 11 da Harpa Cristã.

OBS: A propósito, no final do ano passado, o mundo todo pôde verificar como é geradora de escândalo a falta de santificação de quem se apresenta como “defensor da fé” no triste episódio da descoberta de um relacionamento homossexual mantido pelo pastor Ted Haggard, presidente da Associação Nacional dos Evangélicos nos Estados Unidos e que era o principal líder contra a legalização da união homossexual naquele país.

- Mas, além da “martyria” e da “katangelia”, a proclamação da Palavra exige a “cura de todos os oprimidos do diabo” (At.10:38). A Palavra proclamada é confirmada com sinais e maravilhas (Mc.16:20). Para sermos eficazes “testemunhas de Jesus” (At.1:8), temos de estar revestidos de poder, a fim de que não sejamos confundidos com simples oradores, mas pessoas que sejam portadoras do poder de Deus (I Co.2:4). É o que podemos chamar de “iama” (ίαμα), ou seja, “cura”.

- A expressão “Jesus cura”, tão peculiar à pregação do movimento pentecostal no Brasil, embora tenha sido utilizada sempre levando-se em conta a cura física, a cura de doenças, pode ser estendida para abarcar a “cura de todas as opressões do diabo”, que envolve não somente as doenças físicas, psíquicas ou psicossomáticas, como também as possessões demoníacas e toda a sorte de vícios e males decorrentes da vida pecaminosa.

- A Igreja, ao proclamar a Palavra, não deve apenas trazer a mensagem da salvação do mal maior, que é o pecado, mensagem que não deve jamais ser posta em segundo plano ou de lado (como infelizmente acontece hoje em dia), nem tampouco não deve se circunscrever a uma vida exemplar e sincera diante de Deus, mas esta vida de santidade e este pregar do arrependimento dos pecados deve ser confirmada com a demonstração do poder de Deus mediante sinais e maravilhas. Se a primeira pregação da Igreja se circunscreveu à pregação do Evangelho, a segunda se iniciou com a cura de um coxo na porta Formosa do templo de Jerusalém. Esta é uma continuidade que não deve ficar restrita aos tempos apostólicos, mas que continua hoje a ser exigida pelo Senhor da Sua Igreja.

- Entretanto, para que a Igreja, assim como os profetas do Antigo Testamento (mui especialmente, Elias e Eliseu), mostrem sinais e maravilhas, é fundamental que venhamos a ter a mesma vida de santidade, de oração e de sensibilidade espiritual que tinham os apóstolos. Revestidos de poder no dia de Pentecostes, os discípulos continuaram a ter uma constante vida de oração, tanto que Pedro e João encontraram o coxo quando se dirigiam à oração (At.3:1). Por isso, tinham poder de Deus para curar o coxo. Não tinham prata nem ouro, mas tinham o poder de Deus. E hoje, como estamos diante de Deus? Muitos têm até prata e ouro, mas não têm poder de Deus, como é dito que um cardeal da Igreja Romana teria dito a um Papa nos dias de Francisco de Assis. Outros, nem prata, nem ouro, nem poder de Deus. Desta maneira, fica muito, mas muito difícil exercermos a contento o múnus profético da Igreja, ainda mais nos dias em que vivemos, em que o “mistério da injustiça” já está operando e prodígios e sinais de inspiração maligna são cada vez mais freqüentes (Mt.24:24; II Ts.2:7-10).

- O exercício do ofício profético da Igreja só é possível porque, a exemplo do que ocorria com o Senhor Jesus, a Igreja também recebeu o Espírito Santo e Deus está com e na Igreja (respectivamente, Mc.16:20 e At.10:38). Sem a presença de Deus, em Suas três Pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo), nada pode ser feito por parte da Igreja (Jo.15:5). O segredo para o eficaz exercício não só do múnus profético, mas dos outros ofícios da Igreja (real e sacerdotal), está na comunhão que há entre a Igreja e o Senhor. Por isso, tudo o que a Igreja liga na Terra, é ligado no céu e tudo o que é desligado na Terra, é desligado no céu (Mt.16:19). Não se trata de qualquer “privilégio” ou “poder sobrenatural” dado a Pedro, isoladamente, ou mesmo aos apóstolos, mas, sim, uma afirmação de Cristo a respeito da Sua Igreja, que, enquanto em comunhão com a única cabeça, que é Jesus Cristo, atua em unidade com Ele (Jo.17:22,23), nada havendo que possa, pois, prevalecer contra a Igreja, nem mesmo as portas do inferno, ainda que os anjos sejam superiores aos homens (Sl.8:5). É por isso, aliás, que Tiago nos ensina que devemos nos sujeitar a Deus que, aí, então, poderemos resistir ao diabo e ele fugirá de nós (Tg.4:7).

- Quando Jesus perguntou aos Seus discípulos que os homens diziam ser o Filho do homem, a resposta imediata foi de que Jesus era um profeta ou algum dos profetas (Mt.16:13,14; Mc.8:27,28; Lc.19:18,19). Esta é uma prova cristalina de que Jesus cumpriu o múnus profético que o Pai Lhe dera. Se fizéssemos esta pergunta às pessoas que convivem conosco, qual seria a resposta deles? O que andam achando de nós, que, como imitadores do Senhor, temos também de sermos comparados aos profetas (Mt.5:11,12; Lc.6:22,23)? Temos nos apresentado como profetas do Senhor? Ou será que todos têm falado bem a nosso respeito, mas da mesma forma que se referiam aos falsos profetas (Lc.6:26). Que, enquanto é tempo, possamos cumprir o múnus profético que nos impôs o Senhor. Amém!