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sábado, 13 de maio de 2017

O IMPIEDOSO MUNDO DE LAMEQUE

O IMPIEDOSO MUNDO DE LAMEQUE



Pr. Adaylton de Almeida Conceição

         
Caim representa não somente a origem daquilo que virá a ser a expressão do mundo com as suas concupiscências más. Ele é, antes, a representação de um sistema falso de adoração a Deus.  Caim tinha fé em Deus (ao menos de que Ele existia e devia ser adorado) e trouxe suas ofertas ao Senhor, mas não com inteireza de coração.  Caim possuía fé, mas não a fé salvífica que dá crédito somente a Deus pela redenção. Uma fé não salvífica leva a buscar formas de adoração espúrias.


O fato é que Caim teve olhos maus sobre a adoração legítima de Abel. Sua indisposição contra seu irmão foi apenas um reflexo de sua indisposição para com o próprio Deus. Tem sido assim na história desse mundo desde o início e o será até o fim. Os cristãos fiéis devem esperar por sofrimento e reprovação do mundo mas há uma promessa de recompensa (Hb 11.4, Mt 5.10-11). Fora do relato de Gênesis 4 Caim é citado como nome de cidade uma vez (Js 15.57) e como exemplo de impiedade em três outros textos (Hb 11.4 – em oposição a Abel, I Jo 3.12 – onde é dito que ele era do maligno devido seu caráter mau, e em Jd.11 – como exemplo da corrupção e brutalidade irracional que a iniquidade dá origem.


O MUNDO DE LAMEQUE


Depois da história da primeira família, encontramos em Gênesis 4 e 5 duas genealogias. Uma é a descendência de Caim, a outra a de Sete. Ambas terminam com a breve descrição de uma família.


A primeira é a casa de Lameque. “Lameque tomou para si duas esposas: o nome de uma era Ada, a outra se chamava Zilá. Ada deu à luz a Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e possuem gado. O nome de seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta. Zilá, por sua vez, deu à luz a Tubalcaim, artífice de todo instrumento cortante, de bronze e de ferro; a irmã de Tubalcaim foi Naamá. E disse Lameque às suas esposas: Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Porque sete vezes Caim será castigado; mas Lameque setenta vezes sete.” (Gênesis 4.19-24).


O relato bíblico termina o capítulo 4 com a descendência a partir de Caim. Tomando-se Adão como o primeiro tem-se: 1-Adão, 2-Caim, 3-Enoque, 4-Irade, 5-Meujael, 6- Metusael, 7-Lameque. O relato das genealogias tem uma pausa para expor algo a respeito de Lameque. Dele se narra o primeiro canto na Bíblia, e é um canto de orgulho pelo fato de ter matado um homem e um rapaz.

Além desse fato nota-se o primeiro relato de bigamia, pois ele tomou duas mulheres para serem suas esposas. Lameque representa o processo de endurecimento que o pecado causa, progressivamente, naqueles que rejeitam a Deus e vivem de acordo com seus próprios desígnios.


O maior de todos os bens que possui um ser humano é a vida. Em defesa da qual há contingente crescente de pessoas, embora, represente uma minúscula gota no mar. De outro lado, o desprezo pela vida vem num crescente geométrico. 


Matar alguém é crime, assegura o Código Penal Brasileiro, há, porém, atenuantes e agravantes nesse ato humano. Em defesa de sua própria vida matar passa a não ser crime; de sorte que também não o é quando em pleno exercício do dever profissional, ou ainda em face de estado de necessidade. Já os motivos banais, a intenção deliberada, por vezes planejada, de matar afirma a posição de agravante – consuma-se o dolo.


Lameque, o precussor da poligamia.


Lameque tomou para si duas mulheres: o nome duma era Ada, e o nome da outra Zilá.” (Gn 4.19)


Lameque mencionado no livro de Gênesis como filho de Metusael e um dos descendentes de Caim da quinta geração (Gn 4.18-19), foi o primeiro homem a praticar a poligamia (Gn 4.19) e também era um assassino que matou um homem e um jovem (Gn 4.23). Lameque e os seus filhos foram muito influentes na história da humanidade. Infelizmente, como Caim, a sua influência não foi para o bem. Esta família fez grandes progressos, mas nenhum deles foi de âmbito espiritual.


A Bíblia diz que Lameque teve duas esposas. O nome da primeira era Ada que teria sido mãe de Jabal, que foi o pai dos que habitam em tendas e possuem gado e de Jubal, pai dos músicos (Gn 4.20-21). A segunda esposa chamava-se Zilá que foi mãe de Tubal-Caim, o primeiro ferreiro e de sua irmã Naamá (Gn 4.22).


Os descendentes de Caim deixaram um legado de iniquidade e maldade. Tornaram-se autossuficientes e a violência cada vez mais se multiplicava gerando uma sociedade hostil e competitiva. Começava o olho por olho, dente por dente. Esta era uma geração assassina e sábia.


NÃO PISE NO MEU CALO


E disse Lameque [...] escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou” (Gênesis 4.23).


Você já ouviu ou pronunciou a frase: “não pise no meu calo”. Quem pronuncia essa expressão está mandando um recado: “não me ofenda, pois do contrário você sofrerá as consequências”. No texto acima um homem chamado Lameque se vangloria por ter matado um rapaz só porque ele pisou no seu pé. Lameque era adepto da filosofia “Pisa. Mas quando eu levantar, corre”. Lameque é o segundo assassino mencionado na Bíblia. O primeiro foi Caim.


Lameque é um exemplo a não ser seguido por algumas razões. Vejamos:


Primeira, Lameque se vangloria de ser um homem violento. Lameque tem prazer em alardear sua violência. Leia novamente suas palavras: “escutai o que passo a dizer-vos: Matei


Segunda, Lameque banaliza a vida humana. Para Lameque as pessoas não valiam nada. A violência é a demonstração mais vil de que a vida humana não tem valor. Matar um jovem por causa de uma pisada no pé é não ter nenhum respeito à vida humana.


Terceira, Lameque não gosta de sentir dor, mas fere as pessoas. Lameque não gosta de ser pisado, mas pisa as pessoas. Lameque tipifica aquelas pessoas que não gostam de ser machucadas, mas têm prazer em machucar os outros.


Quarta, Lameque é avesso ao perdão. Lameque não conhece a palavra perdão. Perdão é uma palavra desconhecida no vocabulário de Lameque. Infelizmente, muitos à semelhança de Lameque, preferem retribuir a ofensa na mesma intensidade ou em grau superior do que liberar perdão.


Lameque matou porque lhe pisaram. Imaginem quantos pisam e são mortos pelo ato de pisar. Ou quantos haverão de perder a vida diante de lameques dispersos mundo a fora, pelo que há desproporção como resposta à fúria descabida da gana por matar!


Lameque banalizou o bem maior: a vida! Tornou-a uma mera passagem. Gerou lameques que, em nossos dias, tiram a vida do seu próximo por motivos fúteis.


Lameque, o compositor


Lameque é, também, como já nos referimos, o primeiro compositor de hinos, a expressão “ouvi a minha voz” em Gênesis 4.23, refere-se a um poema ou hino. As palavras deste hino revelam quão ímpio Lameque era. Neste hino, explica às suas esposas que matou um rapaz em legítima defesa. Seu crime não foi premeditado. Ele não se orgulha somente de sua vingança, mas diz que faria mais para se vingar do que Deus poderia ter feito para vingar Caim se ele tivesse sido morto. O orgulho de Lameque e sua confiança foram inflamados pelo fato de seu filho Tubalcaim ter feito a primeira espada ou lança.


A canção de Lameque tem um tom de auto justiça. No versículo 24, ele parece justificar suas ações. Este pensamento parece estar implícito: "Eu sou mais justo do que Caim, pois eu matei quem merecia morrer, portanto, quem me ferir, deve ser duramente vingado". “Se Caim há de ser vingado sete vezes, com certeza Lameque o será setenta e sete vezes”. A proporção não é em função do castigo dado a quem matasse Caim, mas em relação ao número de assassinatos. Lameque matou duas pessoas, enquanto Caim matou uma.


Esse breve relato deixa evidente que Lameque tinha todas as características de seu antepassado Caim. Suas palavras e seus atos demonstram que se havia distanciado ainda mais de Deus e de Sua Palavra que Caim. Em conformidade com os pensamentos de Deus, Caim havia tomado para si uma esposa. Frequentemente se pergunta onde ele conseguiu essa mulher. Só há uma clara resposta bíblica. Adão “gerou filhos e filhas” (Gênesis 5.4). Deus “de um só (ou seja, de Adão) fez toda a raça humana” (Atos 17.26). Portanto, Caim se casou com uma de suas irmãs.


Lameque, por sua vez, agiu em claro desacordo com as intenções de Deus e tomou para si duas esposas. A poligamia é uma prática contrária à ordem estabelecida por Deus na criação (Gênesis 2.24). Quem conhece a Bíblia, sabe que Deus tolerou a poligamia, mas nunca a aprovou. Consequentemente, verificamos que esse mal sempre teve o seu devido castigo.



Lições que nos deixa a história de Lameque


A história de Lameque e de sua família deixa uma séria advertência para nós e nossas famílias. Não é pecado almejar que nossos filhos recebam uma boa educação. Evidentemente também não é pecado exercer uma boa profissão ou um ofício neste mundo. Se trabalhamos na agricultura, na cultura ou na indústria, isso não tem muita relevância — desde que possamos exercer nossa profissão em comunhão com Deus e que Ele seja honrado.


Nós, os cristãos, não pertencemos mais a este mundo. Deus “nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Colossenses 1.13). Por graça, fazemos parte daqueles que o Pai tirou do mundo e deu a Seu Filho (veja João 17.6). Mas ainda estamos neste mundo. Por isso, temos que cumprir um papel que implica muitas responsabilidades.


Lameque nos leva ao ponto da história do homem onde o pecado não é apenas cometido descaradamente, mas com prepotência. Ele se vangloriou de seu assassinato para as suas mulheres. Mais que isso, ele se gabou de que seu pecado foi cometido contra um rapaz que simplesmente o ferira. Este assassinato foi brutal, ousado e vão. Pior de tudo, Lameque mostra desdém e desrespeito para com a Palavra de Deus: “Se Sete vezes se tomará vingança de Caim; de Lameque, porém, setenta vezes sete.” (Gn. 4.24).


Deus tinha pronunciado estas palavras para garantir a Caim que ele não seria morto pelas mãos de um homem. Ele também preveniu aos homens sobre a gravidade de tal ato. Estas palavras foram pronunciadas para mostrar o fato de que Deus valorizava a vida humana. Lameque as torceu e distorceu como ostentação de sua violenta e agressiva hostilidade para com os homens e para com Deus.


O pior e o mais trágico: ecoa também nos púlpitos pragmáticos pós-modernos, com escusas de amor pelo mundo (ver I João 2.15-17).


Toda geração que toma para si o cântico de Lameque, vangloriando-se de suas maldades, também sofrerá juízo, pois não encontrará lugar no plano de DEUS, pois nem O aceitam, nem O honram, nem O desejam (ver Romanos 1.18-32).


O plano do diabo era o de claramente impedir o cumprimento da promessa do Redentor (Gen. 3.15), para isso buscou corromper de tal forma a humanidade a ponto de ser impossível haver uma “linhagem messiânica” para que o Verbo pudesse se fazer carne.


Os homens anteriores ao dilúvio, com exceção dos descendentes de Sete; não se preocupavam com outras coisas, a não ser: comer, beber, casar, separa-se e tornar-se a casar. Será que isto é diferente dos dias atuais? Será que a sociedade amadureceu e agora está com seus olhares voltados para Deus o SENHOR? A resposta é não, estamos em dias iguais aos anteriores ao dilúvio, onde os homens, só pensam em comer, banquetear, beber e fazer festas onde existam o maior número possível de beberrões, onde os homens perderam o respeito e o temor a Deus. Não é demais dizer que reeditamos e vivemos num mundo de Lameque, onde nossos olhos estão voltados única e exclusivamente para nós mesmos.

Que Deus tenha misericórdia de nós e que nos despertemos e comecemos a viver uma vida dentro do Reino de Deus.

Pr. Dr. Adaylton Conceição de Almeida (Th.B.;Th.M.Th.D.;D.Hu.)

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Facebook: Adayl Manancial

Email:  adayl.alm@hotmail.com

 

(O Pr. Dr. Adaylton de Almeida Conceição foi Missionário no Amazonas e por mais de 20 anos exerceu seu ministério na Republica Argentina, é Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia, Escritor, Professor Universitário, Psicanalista e Pós Graduado em Ciências Políticas e em Psicanálise, Doutor HC em Psicologia e em Humanidade, Diretor da Faculdade Teológica Manancial e Professor do Seminário Teológico Kerigma). 



BIBLIOGRAFIA

Carlos Ribeiro – Lameque e sua família

Francisco Ramos de Brito - A Cultura de Lameque

H. C. Leupold - Exposition of Genesis (Grand Rapids: Baker-Book House, 1942)

Manoel Neto – Não pise no meu calo

Ricardo Reis – Sobre o Perdão