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quinta-feira, 24 de março de 2011

Conhecer o Hebraico é Fundamental

A Bíblia Tinha razão...

Por Luiz Sayão

É surpreendente observar como, nos dias de hoje, é comum ouvir tanta gente dizer tanta coisa com tanta certeza sem qualquer embasamento objetivo. Muitas vezes, grande parte do que é dito simplesmente não pode ser comprovado. Infelizmente, isso também é fato no contexto do ensino e pregação das Escrituras. Multiplicam-se os arautos de uma variada gama de mensagens, enquanto desaparecem os estudiosos da Bíblia. Um dos problemas mais surpreendentes é o desinteresse e o descaso pelo conhecimento do grego e do hebraico, línguas originais da Bíblia (sem falar do aramaico). É de conhecimento geral que a Palavra de Deus surgiu no contexto histórico do povo judeu. A verdade bem conhecida é que cerca de três quartos da Bíblia foram escritos na língua hebraica.
E apesar de quase todo restante das Escrituras ter sido escrito em grego coinê, o raciocínio subjacente à ampla maioria dos documentos do Novo Testamento é nitidamente hebraico. Isso quer dizer que embora as palavras sejam gregas, o pensamento é semítico, hebraico. Portanto, sem dúvida alguma, se há uma língua e cultura importante para os estudos bíblicos conscientes e mais profundos, trata-se do hebraico. Podemos inclusive afirmar que, sem o conhecimento das línguas originais, não é possível construir uma boa teologia das Escrituras Sagradas.
Diante dessa realidade indisfarçável, temos de reconhecer que existe motivo de sobra para que o cristão de hoje procure conhecer o hebraico bíblico. Nosso objetivo é relacionar nesse espaço pelo menos as razões mais importantes:

1. Conhecer o hebraico é lidar com um tesouro lingüístico inestimável.
O conhecimento do hebraico bíblico nos permite, com bastante segurança, falar as mesmas palavras e frases que os antigos profetas e homens de Deus falaram nos tempos do Antigo Testamento. O hebraico é uma das línguas mais bem preservadas da história humana. Se Jeremias ou Isaías ressuscitassem hoje e fossem tomar um café em Jerusalém, certamente conseguiriam se comunicar. Estima-se que 70% do vocabulário do hebraico contemporâneo tem base etimológica na Bíblia. É um fenômeno lingüístico único. A língua possui uma sonoridade bonita, exótica e diferente. Embora o leitor não seja familiarizado com o hebraico, é possível sentir o som do primeiro versículo bíblico em Gênesis: Bereshit bará elohim et hashamaim veet haarets.

2. Conhecer o hebraico é uma viagem entusiasmada ao desconhecido.
Algumas pessoas têm receio de enfrentar um novo desafio. Todavia, a maioria de nós gosta de ver e experimentar novidades e tem curiosidade pelo que é bem diferente do cotidiano. O hebraico é um universo totalmente diferente. Aprender uma língua não é apenas trocar palavras de nosso vernáculo por outras com sons distintos. Uma língua é uma visão de mundo. Como dizia Hjelmslev, uma língua é um recorte no continuum amorfo da realidade. Ou seja, cada língua é uma interpretação da realidade. O hebraico é o exótico e o inusitado. Leva-nos a uma percepção de mundo muito distinta da tradição latina ocidental. As letras, por exemplo, são muito diferentes e parecem pequenas obras de arte. As consoantes são mais importantes do que as vogais, como se pode observar nas línguas semíticas. As vogais são pequenos pontos, que às vezes confundem o estudante de “primeira viagem”. Ao contrário da tradição ocidental, a língua hebraica é escrita da direita para a esquerda (sentido oposto ao do português). O vocabulário, as associações de idéias e a gramática são totalmente diferentes daquilo que conhecemos, por incrível que pareça há termos parecidos: a conjunção ou em hebraico é `o (ô).

3. Conhecer o hebraico significa conhecer uma cultura muito diferente.
Como já mencionamos, as línguas humanas não possuem apenas palavras diferentes para as mesmas coisas. Na verdade, as palavras são uma expressão da cultura e do modo de ser peculiar de um povo. Algumas particularidades do enfoque semítico chamam a atenção. No hebraico, por exemplo, não existe gênero neutro como acontece no inglês. Tudo é dividido entre masculino e feminino; existe até mesmo o pronome você (masculino) e você (feminino). O verbo é conjugado de modo diferente se é um homem ou uma mulher que está falando. Se eu perguntar a um homem se ele fala hebraico, terei de dizer: atá medaber yvrit? Se a mesma pergunta for dirigida a uma mulher, deverá ser dito o seguinte: at medaberet yvrit? Idéias abstratas, comuns em línguas ocidentais como o alemão e o grego, são muito raras. O aspecto concreto prevalece no hebraico. A expressão bíblica “fazer uma aliança”, por exemplo, é literalmente “cortar uma aliança” em hebraico, fazendo referência à prática de cortar um animal ao meio quando se fazia um acordo ou aliança na antigüidade. É por isso que é impossível fazer uma tradução totalmente literal da Bíblia. Isso não faz o menor sentido!

4. Conhecer o hebraico é aprender a pensar de modo diferente.
Dentre as tantas curiosidades da língua dos antigos patriarcas de Israel, vamos descobrir que o hebraico também é muito diferente do português e das demais línguas latinas por possuir um jeito e uma ordem de frase distintos. Geralmente a ordem é primeiro o verbo e depois o sujeito. Essa é a razão da inversão frasal presente nas traduções antigas da Bíblia em português. Outra característica interessante da língua hebraica é o seu aspecto conciso. A antiga língua dos hebreus usava poucas palavras para dizer muito. Os verbos de ligação são dispensados, os pronomes pessoais estão embutidos na maioria das formas verbais e algumas preposições e sufixos de posse aparecem anexadas aos substantivos. Diz-se muito com poucas palavras. Outra questão que merece atenção especial é o verbo do hebraico. Estamos muito acostumados com a idéia de tempo verbal em português. Dividimos tudo em presente, passado e futuro. Para muitos é surpreendente descobrir que o que caracteriza o verbo no hebraico não é principalmente o tempo do verbo, mas sim o modo da ação. O que mais importa é se a ação é acabada ou não. Em muitas passagens bíblicas somente o contexto determinará se o verbo deve ser traduzido no futuro, no presente ou no passado. Por isso, estranhamos traduções diferentes do tempo verbal da literatura poética do Antigo Testamento. Um exemplo dessa diferença pode ser visto no Salmo 15.2. Veja a tradução literal comparada com uma tradução contemporânea como a Nova Versão Internacional.

5. Conhecer o hebraico significa entender os termos teológicos da Bíblia
Esse conhecimento é muito importante para que não sejam ensinados conceitos mal elaborados e equivocados presentes até mesmo nas igrejas evangélicas. Os vocábulos hebraicos muitas vezes não possuem correspondentes adequados em português. O campo semântico das palavras é muito particular e até mesmo chega a parecer estranho para nós. Mais uma vez, deve-se destacar que uma tradução totalmente literal da Bíblia não teria sentido em português. Uma das palavras muito importantes do Antigo Testamento, por exemplo, é o termo Sheol, traduzido por Hades no grego do Novo Testamento. A tradução uniforme do termo não é adequada. Sheol refere-se de fato ao “mundo dos mortos” e, em muitos contextos do Antigo Testamento, o termo se refere concretamente à sepultura, já em outros textos a idéia é profundezas; há contextos poéticos onde o sentido é morte; mas em muitos textos a idéia de Sheol é mundo dos mortos (no NT Hades pode significar inferno em certos textos). Esse exemplo mostra como devemos ser criteriosos e cautelosos para concluir apressadamente muitas idéias sobre a Bíblia. É preciso ter base lingüística adequada. Quem poderia imaginar, sem o devido estudo, que a palavra Shalom, tão conhecida, significa muito mais do que paz. A verdade é que Shalom quer dizer também prosperidade, vida plena, segurança. Em cada contexto específico, a palavra pode ter uma nuança específica e deve ser traduzida de modo distinto. A idéia de paz subjetiva e psicológica não é o que predomina no hebraico. Em português essas associações não são claras. Quando um judeu cumprimenta o outro, ele pergunta: “Como vai a tua paz?” Paz, portanto, não é um termo simplesmente psicológico e emotivo, mas sim um termo concreto em relação à vida.
Diante de tais considerações, não há dúvida de que a Igreja Evangélica de hoje deve dar a devida atenção ao estudo das línguas originais da Bíblia, particularmente o hebraico. Especialmente em nossos dias quando muitos conceitos equivocados e mistificados são disseminados por quem conhece pouco do assunto, é mais do que necessário ampliar o conhecimento do povo de Deus no campo das línguas originais da Bíblia. Estude e conheça o hebraico bíblico.